Paraíso fiscal e servidão dos pobres

1 de agosto de 2012 at 12:54 pm Deixe um comentário

Se os cidadãos do mundo inteiro não se mobilizarem, o destino dos povos será a nova e mais insidiosa servidão

Mauro Santayana – Brasil de Fato


colunista_Mauro_SantayanaO grande pensador britânico George E. Moore, que influenciou, entre outros, Bertrand Russell, e, por seu intermédio, Wittgenstein, buscou, como tantos filósofos, o amálgama entre a lógica e a ética. É provável que o tenha encontrado, ao afirmar que o fundamento de toda filosofia é o bom senso.

Qualquer pessoa dotada de razão é capaz de distinguir entre o bem e o mal, ao examinar determinada situação, a partir do senso comum. Sendo assim, sob qualquer exercício da inteligência, os grandes bancos do mundo não passam de quadrilhas de assaltantes. Não só assaltam isoladamente, mediante as taxas exacerbadas de juros e dos serviços que prestam, mas se associam a outros assaltantes para lesar os trabalhadores e os empreendedores honrados do mundo inteiro.

Os 50 maiores bancos do mundo, segundo os estudos da Tax Justice Network – da qual é um dos dirigentes o notável contabilista britânico Richard Murphy – são responsáveis pela transferência ilegal de 21 trilhões de dólares, em sua imensa maioria dos países em desenvolvimento, para os paraísos fis cais. A cifra é superior à soma do PIB dos Estados Unidos e do Japão. Trata-se de um duplo delito: o dinheiro, que poderia ser usado no desenvolvimento econômico interno, vai ser empregado na especulação financeira ou em investimentos nos países mais ricos do mundo, e são sonegados os impostos devidos aos estados nacionais. Trata-se de um assalto aos que, realmente, o produziram com o seu trabalho.

Os paraísos fiscais não acolhem apenas o dinheiro subtraído ao fisco, mas servem de bom refúgio aos recursos – empapados de sangue e marcados pelo sofrimento de milhões de famílias – procedentes do tráfico de drogas. Como se revelou recentemente, o HSBC admitiu ter servido para a lavagem de dinheiro das quadrilhas mexicanas de narcotráfico.

Os paraísos fiscais se multiplicaram, no mundo, a partir da deregulationanglo-americana dos anos 80, promovida por Reagan e Thatcher, com o objetivo de restaurar o processo de acumulação acelerada do capitalismo do fim do século 19. Embora já houvesse tais paraísos – e a Suíça é o mais antigo e o mais seguro deles – houve perversa competição entre governos de nações menores, com o objetivo de ganhar o máximo na guarda simbólica de tais valores, que não se transferem fisicamente para tais territórios.

Sem os bancos de presença internacional, não seria possível essa peregrinação de recursos ilícitos. Para escapar à vigilância das autoridades honradas de alguns países (porque elas existem), tais recursos virtuais costumam peregrinar, indo de Tóquio a Berlim, de Berlim a Cingapura, de Cingapura a Santiago em alguns minutos, para, em seguida, refugiar-se onde não possam ser localizados.

De acordo com o estudo, os três maiores bancos responsáveis pela evasão de recursos são a UBS (União de Bancos Suíços), o Crédit Suisse e o Goldman Sachs. Eles encabeçam a lista, mas nenhum dos bancos privados que operam internacionalmente se encontram limpos. Uns mais, outros menos, operam na criminalidade.

Não há povos que não sejam vítimas desse saqueio mundial. Conforme o levantamento, a evasão maior procede da China, com mais de um trilhão de dólares nos paraísos fiscais. E estamos em posição desconfortável. Os nossos sonegadores brasileiros e prováveis integrantes de quadrilhas de narcotraficantes e de corruptos e concussionários, mantêm mais de 520 bilhões de dólares em tais “paraísos”.

Quando o então presidente Itamar Franco quis nomear um contador para o Banco Central, o mundo caiu sobre a sua cabeça. Itamar queria conhecer o conteúdo da chamada “caixa preta” da instituição. O principal denunciador dos paraísos fiscais, o contador Richard Murphy, atribui à fragilidade das leis que regem os sistemas contábeis dos grandes países a responsabilidade pelos crimes cometidos pelas grandes corporações, sobretudo as financeiras, contra os povos do mundo e, assim, pela brutal desigualdade social de nosso tempo.

Os bancos devem ter seus negócios expostos aos acionistas e clientes, e sob a fiscalização permanente das autoridades. Como se sabe, os sonegadores – entre eles, os bancos – operam com duas contabilidades, a real e outra para efeito público. Isso só é possível porque eles financiam as eleições, determinam como devem ser as leis, controlam os meios de informação e cooptam os formadores de opinião.

Se os cidadãos do mundo inteiro não se mobilizarem, o destino dos povos será aquele que parece esperar os gregos, os espanhóis, os sicilianos: nova e mais insidiosa servidão.
Mauro Santayana é jornalista.

Anúncios

Entry filed under: Artigo. Tags: .

Maioria das universidades federais rejeita proposta do governo Programa de governo de Alexandre Castilho

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


RSS PSOL São Paulo

  • Guilherme Boulos | Precisamos falar de justiça tributária
    Artigo publicado originalmente no site do IREE Vivemos um momento de encruzilhada. Acredito que não podemos mais fugir ou empurrar nossos problemas pra frente. A política de ajuste de Temer é a mesma que fracassa a olhos nus e se refugia no “socorro” do FMI na Argentina de Macri. É preciso apontar os problemas estruturais do […]
  • Nota pública: o Brasil diz não a Temer
    Na última semana o governo Temer completou dois anos de ataques à democracia, à soberania e aos direitos sociais. Sua agenda de retrocessos tem como alvos imediatos os direitos trabalhistas e previdenciários, o patrimônio nacional, a legislação ambiental e a capacidade de atuação do Estado, cuja soma coloca em questão os direitos da pessoa humana, […] […]
  • Projeto do PSOL na Alesp proíbe descarte de resíduos tóxicos na natureza
    A bancada do PSOL na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), composta por Carlos Giannazi, João Paulo Rillo e Raul Marcelo, apresentou nesta quarta-feira (23) projeto de lei que proíbe o descarte de resíduos tóxicos na natureza em território do Estado de São Paulo. A ideia da elaboração desta proposta de lei partiu de um […]
  • Executiva Estadual do PSOL SP aprova entrada do deputado João Paulo Rillo
    A Executiva Estadual do PSOL SP reunida neste sábado, 24.03, na sede do partido aprovou por 13 votos a 1, a entrada do Deputado Estadual João Paulo Rillo no PSOL. Nas redes sociais o deputado Rillo se manifestou em publicação com título Um Novo Caminho, no qual apresenta as razões da saída e um pouco das […]
  • Grande Ato em memória de Marielle Franco nesta terça 20.03 às 17h no Masp
    Marielle vive! Convidamos todas e todos, lutadoras e lutadores para um ato político, cultural e ecumênico na próxima terça, dia 20 de março, no vão livre do MASP – Av.Paulista, a partir das 17h. Será um dia de mobilizações nacionais, para transformar nossa dor e indignação em luta. Não podemos tolerar mais tanta violência. O […]

%d blogueiros gostam disto: