Debate mostrou que havia resistência parlamentar durante a Ditadura

6 de junho de 2012 at 12:46 pm Deixe um comentário

 

Texto de Thaís Barreto sobre o Sábado Resistente

Postado: Núcleo Memória

Novos diálogos e reflexões a respeito da Ditadura Militar no Brasil mostram diversos setores que desafiaram os paradigmas políticos do regime. É o caso da resistência do parlamento brasileiro, tanto no Distrito Federal quanto em outros Estados, protagonizado por diversos deputados. O tema foi discutido no primeiro “Sábado Resistente” de 2012 realizado no Memorial da Resistência no dia três de março. O depoimento do ex-deputado federal, que também foi advogado de presos políticos, Airton Soares, foi escutado por uma plateia de mais de 240 pessoas, a maioria composta por jovens. 

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A platéia do Sábado Resistente

A criação do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), inicialmente uma concessão do regime militar, foi importante porque conseguiu abrigar diversos opositores da ditadura. Muitos bateram de frente com os que integravam a Aliança Renovadora Nacional (Arena). Segundo Airton Soares o MDB foi criado para ser oposição. Era composto por parlamentares que dialogavam diretamente com a sociedade civil e também trabalhavam no contexto internacional. Nem todos os que estavam no MDB  faziam parte da esquerda, podendo dessa forma  circular no outro partido para troca de ideias ou informações. Alguns deputados estavam comprometidos no combate ao regime militar, reuniram-se e formaram o “grupo dos autênticos”.  Tiveram apoio nas organizações da sociedade civil, as quais se mantiveram atuantes, apesar das dificuldades.

Este grupo definiu 10 pontos em uma Carta para contribuição no processo de redemocratização do país. Tal definição servia de base para as discussões e, segundo Airton Soares, os enfrentamentos chegavam aos limites que se permitia, pois entendiam que o mandato tinha função de denúncia crítica e todos angariavam esforços para alcançar destaque, mesmo com a censura que havia à imprensa. Os crimes cometidos eram denunciados de diversas formas. Muitas vezes os deputados utilizavam o programa de rádio “Voz do Brasil” para falar das torturas praticadas. 

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Airton Soares e Ivan Seixas no Sábado Resistente – A Resistência Parlamentar à ditadura

O “grupo dos autênticos” contava com a solidariedade internacional. Em países como França, Suíça, Estados Unidos e Portugal, os parlamentares tinham seus interlocutores que ousaram denunciar as atrocidades, publicando manifestos contra a ditadura brasileira. Ao mesmo tempo em que isso ocorria, na Europa e Estados Unidos a partir dos anos 80, era possível identificar cumplicidade entre as ditaduras do Cone Sul, na chamada Operação Condor, explicou Soares. Mas os deputados que haviam se comprometido continuaram seu trabalho. Soares contou em detalhes  alguns episódios em que os deputados contribuíram ativamente para  resguardar a vida de algumas pessoas perseguidas.

A história da fuga do ex-preso político que foi condenado à morte, Teodomiro Romeiro, preso na capital baiana, foi uma delas. Houve uma articulação das organizações de esquerda junto ao “grupo dos autênticos” para tirá-lo do país. Mais tarde descobriram outra colaboração. O ex-chefe da Casa Militar, Hugo Abreu, que em determinado momento integrou uma dissidência interna dentro do próprio aparelho militar, acabou dando uma  contribuição para que Teodomiro saísse do país, mandando uma mulher do SNI em uma moto para dar cobertura durante a fuga, sem que os envolvidos pudessem desconfiar.

Com esses trabalhos de envolvimento direto na proteção a vitimas da ditadura, não demorou e muitos deputados acabaram cassados e alguns presos. Soares destacou o caso de ex-deputado federal Rubens Paiva, que foi morto e seu corpo continua desaparecido. Em 1974, os militares fecharam o Congresso e colocaram senadores biônicos, transparecendo o recrudescimento do regime.  Em 1978 os deputados propuseram a CPI dos Mortos e Desaparecidos. Os familiares estavam unidos e reuniram documentos que revelavam crimes de assassinatos e desaparecimentos.

Antônio Resk

O evento deu destaque para a atuação de Antônio Resk. Ele foi líder clandestino do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e atuou no MDB, chegando a ser eleito vereador com esta sigla. Em 1978 foi eleito deputado estadual por duas legislaturas consecutivas. Resk tinha entre suas preocupações a campanha que se fazia entre as pessoas para que elas desacreditassem do trabalho dos órgãos políticos para com a sociedade. Em 1977 ele incluiu isso no seu discurso e permaneceu com essa ideia em seu trabalho.

Mesmo fora do Congresso, Resk atuou em associações de bairro, foi presidente do Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais e Tecnológicos (IPSO) e primeiro vice-presidente da União Brasileira dos Escritores (UBE). Gostava de estudar as questões sociais e publicou em 2001 o livro "A Revolução do Homem". Nesta obra ele estudou com pioneirismo a Antropologia Política.

Antes de seu falecimento, em 2005, comunicou a sua mulher sobre a existência de papéis que abrigavam novas ideias a partir dos seus estudos. Os papéis foram entregues a pedido dele aos seus amigos e membros de um grupo de estudo que ele participou. Os textos agora podem ser lidos no livro que foi lançado durante o evento “Ruptura – Anomia na civilização do trabalho”, organizado por Marilucia Meireles e Marco Aurélio F. Velloso.

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Os organizadores do livro, Marilucia Meireles e Marco Aurélio F. Velloso

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