Um pogrom em Israel

3 de junho de 2012 at 1:51 pm Deixe um comentário

ESCRITO POR LUIZ EÇA

MAIO DE 2012 – POSTADO: CORREIO DA CIDADANIA

x310512_violencia_israel.jpg.pagespeed.ic.JBfla4g44pPara quem não está a par, “pogrons” eram ataques que turbas de racistas faziam contra aldeias ou bairros de população judaica. Comuns durante séculos, especialmente na Europa Oriental, mobilizavam bandos que saqueavam e destruíam casas e lojas de judeus, ferindo e até matando.

Por uma ironia do destino, os “pogrons” reviveram em Israel, na noite de quarta-feira da semana passada. Só que as vítimas de ontem foram os algozes. Na região sul de Tel-aviv, uma multidão de mil pessoas atacou e destruiu casas, carros e pequenos negócios de uma zona habitada por africanos, que vieram a Israel em busca de asilo. Feriram dezenas, felizmente não houve mortes. Foram liderados e açulados por membros do Parlamento israelense: Michael Bem-Ari, Miri Regev e Danny Danon.

Bem-Ari é membro da União Nacional de extrema-direita, que conclamou a turba a fazer justiça com as próprias mãos, afirmando que o “o tempo das palavras já passou”. Ele pertenceu ao movimento ortodoxo, racista e fascista Kach, fora da lei em Israel e considerado organização terrorista nos EUA.

A deputada Miri Egev é do Likud, partido do premier Netanyahu e chamou os imigrantes negros africanos de “câncer na sociedade israelense” – expressão muito usada pelos nazistas ao se referirem aos judeus na Alemanha.

Ela deve ter copiado o coronel Effi Eitan, que há poucos anos referiu-se aos árabes israelenses como “um câncer.”

Posteriormente, ela desculpou-se por mencionar o Holocausto e o câncer, mas somente às vítimas de um e aos doentes do outro. Manteve o que havia dito dos africanos.

Também do Likud é Danny Danon, que dirige um lobby que propõe como única solução para o problema dos africanos o seguinte: “Precisamos expulsar os infiltrados de Israel. Não devemos ter medo de usar as palavras ‘expulsão já’”.

Milhares de africanos da Eritréia e do Sudão do Sul têm chegado a Israel fugindo da extrema miséria, da fome, de governos opressivos e das barbaridades praticadas por bandos armados nos seus países. Vêm pela fronteiras com o Egito, trazidos por grupos de indivíduos que os exploram ao máximo.

Em Israel, são cuidados por ONGs israelenses e pelo Alto Comissariado de Refugiados da ONU, onde ficam semanas e até meses, esperando que seus pedidos de asilo para poderem trabalhar sejam aprovados.

Muito antes disso, o governo os solta na estação central de Tel-aviv, sem dinheiro, sem agasalhos, sem nada. E que se virem até a decisão final sobre seus pedidos. A maioria vai viver nas zonas mais pobres de Tel-aviv.

Enquanto esperam, alguns trabalham ilegalmente em funções tão humildes que os israelenses rejeitam. Outros pedem esmolas ou roubam.

Uns poucos abrem pequenos negócios. Raros recebem licenças de trabalho. Segundo o 2011 Country Reports on Human Rights Practices: “dos 4.603 novos pedidos de asilo, 3.692 foram rejeitados”.

Acabam concorrendo com os trabalhadores israelenses pobres, especialmente nas épocas de crise econômica, quando o desemprego aumenta. Parece que isso está acontecendo agora.

A raiva contra a concorrência dos negros africanos, aos quais também se atribui um certo aumento no número de crimes, vem sendo estimulada.

Solidário com seus eleitores pobres, Netanyahu declarou que a onda de migrantes ameaça o “caráter judeu e democrático” do Estado de Israel. Novamente repetem-se considerações de líderes nazistas aplicadas contra os judeus.

Muito estranha esta insistência em preservar o caráter judeu do Estado de Israel, ameaçado pela população negra africana. Em primeiro lugar, porque significa um desejo de rejeitar as misturas com outras raças, como algo maléfico, que prejudicaria a pureza da raça judaica.

Em segundo lugar porque sendo os africanos em Israel apenas 60 mil, representam 0,8% da população do país, sem condições, portanto, de modificar muito o quociente racial de Israel.

Bibi também condenou as violências, mas depois de sua afirmação acima, essa condenação fica um tanto hipócrita.

No “pogrom” de Tel-aviv, a multidão gritava coisas como: “fora com os negros”, “mande os sudaneses de volta para o Sudão”, enquanto outros, mais tranqüilos, limitavam-se a condenar “os esquerdistas de coração sangrento que trabalham para ajudar os negros”.

Não faziam mais do que ecoar o apelo do ministro do Interior, Eli Yishai: “Precisamos pôr todos esses infratores atrás das grades em centros de detenção, e os mandar para casa porque eles vieram tomar empregos de israelenses”.

Seria a solução final para o problema dos africanos de Israel. Voltando para a fome, a miséria, os massacres, as doenças epidêmicas e endêmicas e às torturas que os espera na Eritréia e no Sudão Sul, eles teriam destino semelhante ao dos judeus do holocausto.

É simples assim.

Luiz Eça é jornalista.

Website: Olhar o mundo.

Anúncios

Entry filed under: Artigo. Tags: .

Osasco tem passagem de ônibus mais cara do País segundo a ANTP Greve dos Metalúrgicos de Niterói

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


RSS PSOL São Paulo

  • PSOL ingressa com ação de inconstitucionalidade da lei anti-pichação de Doria
    PSOL INGRESSA COM AÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DA LEI ANTI-PICHAÇÃO DE DÓRIA O PSOL São Paulo ingressou na tarde desta quarta-feira, dia 08 de março, com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade no Tribunal de Justiça de São Paulo questionando a Lei Municipal n° 16.612/2017, que instituiu o “Programa de Combate às Pichações” na capital. Aprovada pelo […] […]
  • Nota de repúdio à violência policial que reprimiu ato pacífico na USP
    O PSOL repudia a ação da Polícia Militar que reprimiu violentamente uma manifestação pacífica que ocorria hoje, dia 7 de março de 2017, em frente ao prédio da reitoria da Universidade de São Paulo (USP), em função da pauta bomba que seria discutida no Conselho Universitário (CO). Esta reunião do CO tinha como pauta aprovar […]
  • Projeto de pontos de cultura de São Carlos é interrompido unilateralmente pelo MINC: anúncio de um desmonte estadual em São Paulo
    Por Djalma Nery Com a tendência a entender cultura como entretenimento e eventos pontuais, políticas públicas processuais e de fomento prolongado a determinadas linguagens e manifestações artísticas tem se tornado cada vez mais escassas no orçamento público. As escolhas da atual gestão do Ministério da Cultura apontam para um possível desmonte de políticas p […]
  • A Máquina do Tempo
    Por Manoel Francisco Filho Aprendi com Neil deGrasse Tyson que segundo teoria de Albert Aistein seria possível uma curva no tempo e espaço em algum lugar do Universo, haveria possibilidade de proporcionar um portal para outra dimensão. Nunca fui muito bom em Física, abandonei o curso de Processo de Produção no terceiro semestre, esta ignorância […]
  • Desemprego no Brasil é maior entre negras e negros
    Por Joselicio Junior O estudo feito pelo IBGE, divulgado no último dia 23 de fevereiro, sobre a taxa de desemprego no último trimestre de 2016, demonstram como população negra é a mais atingida nos momentos de crise econômica. Segundo os dados, o ano passado fechou com uma taxa média de desemprego de 12%, porém para […]

%d blogueiros gostam disto: