No Peru, a guerra de informação sobre as drogas

17 de abril de 2012 at 12:59 pm Deixe um comentário

Falácias sobre a produção da folha de coca são propagadas a fim de garantir interesses estadunidenses e da elite política e econômica peruana

Márcio Zonta – de Lima (Peru)

Publicado  Brasil de Fato

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Policias destroem plantação de coca em Padre Abad,

província localizada na região de Ucayali – Foto: Reprodução

O assunto “drogas” influencia diretamente a soberania do país andino. Os mais afetados são os camponeses cocaleiros que veem sua produção ancestral ser dia pós dia mais atrelada ao narcotráfico no país.

Longe de uma definição acerca de uma política antidroga, o advogado e pesquisador peruano Ricardo Saberón, mestre em Política Internacional e Estudos de Segurança Nacional pela Universidade Bradford, na Inglaterra, rechaça a atual política adotada pelo governo Ollanta Humala. “No Peru, o debate sobre as drogas ganhou um tom militar como se fosse assunto apenas dessa alçada, quando teria que ser apoderado pela sociedade civil, pelas comunidades, associações e movimentos sociais”, defende.

Saberón recentemente pediu demissão do cargo de Presidente da Agência Peruana Antidrogas por não aceitar, entre outras questões, a forma como os produtores da folha de coca vêm sendo tratados. “Desde 2008, vários líderes camponeses cocaleiros vêm sendo presos arbitrariamente acusados de envolvimento com o narcotráfico e com o terrorismo no país”.

Em entrevista, Saberón, também fundador do Centro de Investigação de Drogas e Direitos Humanos no Peru – CIDDH, revela que a questão das drogas e o narcotráfico no país perpassa por diversos interesses, principalmente estadunidense. “Há uma manipulação nas informações sobre drogas e narcotráfico no Peru para fins políticos”.

Brasil de Fato – O que significa a folha de coca para o camponês peruano?

Ricardo Soberón – Estamos falando de 100 mil famílias camponesas peruanas, o que dá em torno de 360 mil pessoas que vivem na serra, próxima da selva, que tem uma parcela de cultivo da folha de coca. O camponês peruano trabalha com a diversidade de cultivos, o que lhe permite ganhos durante todo o ano. A folha de coca, sobretudo, proporcionou-lhe liquidez e dinheiro permanente para pagar suas despesas, além, claro, de ser um cultivo muito popular que passa de uma geração para outra.

E hoje? Qual a principal ameaça que sofre o camponês cocaleiro no Peru?

A Agência Internacional de Desenvolvimento (AID) influencia o governo peruano e ambos fazem um discurso que não existe desenvolvimento rural com a folha de coca, por isso teria que extinguir seu cultivo. E assim lançam uma série de projetos que dizem que o camponês tem que se converter em empresário, agroexportador, utilizando suas terras de outra maneira. Não falam, por exemplo, que na Selva Alta no Peru, há muita chuva que pode prejudicar o solo e que somente há condições para determinado tipo de cultivo, não em grande intensidade, mas um sítio com várias plantações e uma delas é a folha de coca.

Fora que desde 2008 vários líderes camponeses cocaleiros vêm sendo presos arbitrariamente acusados de envolvimento com o narcotráfico e com o terrorismo no país. Em San Martin, cidade próxima à Amazônia peruana, os cocaleiros ainda sofrem pressão das transnacionais que querem suas terras para outros cultivos, numa região que tem testemunhado o desenvolvimento da atividade da agroexportação e os preços dos produtos agrícolas nessa região, que não a folha de coca, subiu muito. Principalmente porque os estadunidenses investiram muito dinheiro na produção de arroz e café, além de ser uma região que possui bastante água.

O que de fato é destinado da produção da folha de coca ao narcotráfico no Peru? Como se dá esse processo?

Há um problema sério que na verdade é político quando se fala das metodologias de conversão da folha de coca em cocaína, pois há um déficit de informação sobre isso que gera polêmica, criminaliza os camponeses produtores e, sobretudo, possibilita uma intervenção dos Estados Unidos. Estima-se que nas zonas andinas da Colômbia existam 62 mil de hectares plantados de folha de coca. O Peru teria pouco menos, 61 mil hectares, produzindo aproximadamente 130 mil toneladas de folha de coca. A cada dois quilos de pasta-base lavada, sai um quilo de cloridrato de cocaína, que posteriormente é exportado via portos peruanos ou nas fronteiras com o Brasil; ou ainda é repassado para organizações internacionais.

Destes 61 mil hectares cultivados no Peru, dez mil são destinados a consumos tradicionais e o restante abastece o mercado do narcotráfico. Mas, veja bem, existem atravessadores neste processo dos dois lados, do formal e informal.

Do formal, a captura de parte dos dez mil hectares destinados ao consumo, digamos legal, é feito pela estatal Yanoca, que recebe recursos internacionais de organizações antidrogas. Porém, a estatal repassa o que apanha geralmente apenas para o consumo de um contingente indígena na selva peruana, o que do meu ponto de vista é uma propaganda nefasta, pois aponta como se somente os índios consumissem coca, mais ninguém, gerando uma visão egocentrista, colonizadora.

E da maneira informal e que o Estado não “reconhece”, há o processo dos atravessadores da matéria-prima para transformação da cocaína. Assim, o mercado do narcotráfico é abastecido principalmente pela falta de políticas públicas e não da intervenção policial, que existe. O centro do problema não é o camponês, e sim uma gama de pessoas que lucra com isso.

E quem são essas pessoas que lucram com o narcotráfico no Peru?

Temos mais ou menos 600 grupos de narcotráfico no Peru. Lava-se 4 milhões de dólares do dinheiro do narcotráfico no país em comércio, transporte e nas mais diversas redes sociais econômicas. E como qualquer outra commodity, o preço da cocaína pode variar de 4 a 15 mil dólares, o quilo. Aliás, é muito mais que uma commodity, pois varia demais o preço. O tráfico da cocaína está convertido num instrumento de sobrevivência econômica no mundo globalizado em muitas sociedades. Portanto, o comportamento do Estado no Peru, da Polícia Nacional, do Ministério Público e de parte dos advogados, juízes, diplomatas e políticos, é de conivência, pois lucram com o narcotráfico.

Geralmente os países produtores da folha de coca não são os grandes conversores da matéria-prima para a cocaína. No Peru isso é diferente?

Não é diferente, embora exista também a conversão no Peru. Não acredito que seja a quantidade que os informes internacionais mencionam de 325 toneladas de cocaína. Porque no país se captura de onze a quinze toneladas métricas anualmente da droga e os hectares que destinamos à plantação da folha de coca no país não chegariam a essa quantidade.

Na Colômbia, por exemplo, se captura bem mais, cerca de 130 toneladas de cocaína. Segundo estudos internacionais, no mundo se produz 1.200 toneladas métrica de cocaína. Desse montante, as operações das polícias interceptam 700 mil, restando 500 mil toneladas ao mercado, dando um rendimento de aproximadamente 80 milhões de dólares anuais.

No Peru, a questão das drogas tornou-se extremamente discutida num tom militar, como se fosse responsabilidade apenas dessa alçada. Esse assunto teria que ser tomado pela sociedade civil, pelas comunidades, associações e movimentos sociais.

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Marcha dos cocaleiros – Foto: Reprodução

Você cita os Estados Unidos no começo da entrevista…

A satanização da folha da coca, e não é de hoje, sempre serviu como desculpa para intervenções estadunidenses na América Latina. No Peru, em especial, isso começou na década de 1950. Uma verdadeira esquizofrenia do Estado mirou os camponeses cocaleiros, o que deixou bem feliz os Estados Unidos na época, que ganhou campo em nosso país e pôde, a partir daí, avançar muito mais.

Avançar muito mais em que sentido?

Um dos sentidos é a presença de militares. Eu não acredito em bases estadunidenses no Peru, mas sim em dispositivos móveis. Nos últimos anos, temos uma relevante frequência de ingressos de militares estadunidenses nas tropas de treinamento da Marinha, do Exército e Força Aérea Peruana.

Para se ter uma ideia, até 2004, o Congresso da República tinha que autorizar a entrada de militares estadunidenses no Peru. Isso acabou quando o presidente Alejandro Toledo Manrique (2001-2006), grande amigo dos Estados Unidos, impôs uma lei que o ministro de Defesa apenas precisa informar ao Congresso sobre a entrada, mas não mais pedir permissão para os militares estadunidenses treinarem nossas tropas. Por isso hoje a entrada é praticamente livre.

Eles desenvolvem um treinamento específico no trabalho de infantaria na selva peruana com a desculpa de atacar grupos terroristas e o narcotráfico, criando uma dependência de nossas forças armadas aos ditames militares estadunidenses. Essa situação leva o Peru ao encontro do Comando do Sul, que é uma tentativa de controle da região efetivado por tropas dos Estados Unidos. Sua atividade é planejar as operações de segurança na América Latina, sendo responsável por toda segurança do Canal de Panamá, uma rota marítima por onde se exportam as principais matérias-primas da região. Estados Unidos e China são os principais usuários desse canal.

Daí também o interesse pela saída do mar, haja vista que o Peru se situa entre países que ocupam grande parte da costa do Oceano Pacífico e que já sofrem grande influência estadunidense, Chile e Colômbia, salvo o Equador…

Não é a toa que a Marinha é a que teve sempre, entre as três forças armadas peruanas, mais militares estadunidenses e se posiciona de maneira mais conservadora em diversos assuntos.

Fora as forças armadas, como esse domínio estadunidense se estende ainda com a desculpa do narcotráfico no Peru?

Esse é menos despercebido aos olhos de todos, está infiltrado em diversas relações sociais e econômicas. Porém perpassa a questão do narcotráfico e visa defender todo interesse estadunidense na Amazônia peruana, principalmente pelo gás e contra a investida da esquerda no Peru.

As ONGs peruanas, em sua maioria financiadas pela AID com dinheiro dos Estados Unidos, alimentam financeiramente a imprensa, universidades, partidos políticos e congressistas. Exemplos: o maior grupo empresarial do país pertencente a uma família peruana, dona do jornal mais lido de Lima, El Comércio, que impõe a visão yankee. Possuem ainda televisão, rádio e jornais em todo país. Três analistas que escrevem para o jornal são pagos para fazerem artigos conforme a conjuntura política do país e da América Latina. A Universidade Católica do Peru tem um centro de estudo internacional, assegurando discursos e fontes aos favores estadunidenses. No congresso, para defender leis e formas de exportação que beneficie os Estados Unidos está Luis Ibérico, do Partido Aliança para o Progresso. Todos são pagos por contratos de supostas consultorias prestadas à AID ou às ONG’s financiadas por ela e, assim, manipulam todas as suas estratégias de ação.

Para concluir, explique a preocupação dos Estados Unidos com a “… investida da esquerda no Peru”.

Ao meu ver Brasil e Argentina são os grandes países da região, se colocam como uma sólida frente política com governos progressistas e mais à esquerda.

Por conseguinte, vem o bloco da Aliança Bolivariana para os Povos das Américas (ALBA) com Venezuela, Equador, Bolívia e Cuba. Sobra nesse contexto, México, Chile, Colômbia e Peru. Imagine se o presidente Ollanta Humala aplicasse seus discursos nacionalista e mais à esquerda que fez durante sua campanha para presidência da república? Seria um caos para os Estados Unidos, que hoje tratam de maneira muito cordial o presidente Humala. Portanto, o Peru é estratégico e preocupa muito os estadunidenses diante dessa configuração política no continente.

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