América Latina é fonte de inspiração para esquerda francesa

9 de abril de 2012 at 12:00 pm Deixe um comentário

foto_mat_34392

Jean-Luc Mélenchon, o “homem milagre” da esquerda francesa nas eleições presidenciais que se aproxima, dá entrevista exclusiva para o correspondente da Carta Maior em Paris, Eduardo Febbro. Ele fala sobre como o projeto político da Frente de Esquerda é muito mais que uma máquina anti-liberal, incorporando conceitos de ecologia política que questionam nosso atual padrão de consumo e de desenvolvimento. "Os modelos que tomamos como inspiração são os da América Latina, eu me inspirei no que aconteceu lá. A Frente Ampla foi uma fonte de inspiração para mim"

Eduardo Febbro

Paris – Um após o outro, os trabalhadores expõem seus problemas, o confronto com o patronato, as consequências do deslocamento das empresas, o desperdício dos recursos, a destruição ecológica, o custo desumano das reengenharias industriais, os erros monumentais de gestão, as ideias concretas para salvar uma fábrica e, com ela, centenas de empregos. Os trabalhadores da CGT, com microfone em mãos, apresentam a história que os meios de comunicação ocultam, com um empenho perverso. Jean-Luc Mélenchon os escuta, toma notas, pergunta, pede esclarecimentos. São 10 da manhã de um dia primaveril. A sede de campanha do candidato da Frente de Esquerda fica num subúrbio popular do norte de Paris e tem tudo a ver com o seu apelido: “a fábrica”. Um grande galpão onde certa vez houve uma fábrica de sapatos foi adaptado agora para estes dias de batalha eleitoral. O sol está fora e dentro deste amplo local onde não se respira outra coisa que a própria vida: humilde, sã, problemática, solidária, trabalhadora, humana. O sol chega com as pesquisas de opinião que vão apresentando o movimento que Jean-Luc Mélenchon lidera no lugar de um ator decisivo das eleições presidenciais do próximo 22 de abril e seis de maio: 6%, 9%, 10% até hoje quase 14%, que vai o empurrando para o terceiro lugar, atrás do presidente Nicolas Sarkozy e do candidato do partido socialista François Hollande.
Uma história incrível para um movimento político recém fundado e em cujo seio coabitam comunistas do PCF, esquerda radical e anti-liberal, socialistas dissidentes e ecologistas duros. A maioria desses partidos estiveram ao ponto de sair da história. Agora estão juntos num projeto que os mobilizou e, assim, tornou realidade um dos sonhos mais inalcançáveis da esquerda mundial: pactuar um consenso orgânico acima das querelas assassinas que os dispersaram. Em 2009, a Frente de Esquerda ganhou cinco cadeiras no parlamento europeu. O leque se ampliou de maneira espetacular, com as eleições presidenciais. Tanto que durante o comício que a Frente realizou na Praça da Bastilha há duas semanas Jean-Luc Mélenchon não pôde terminar o seu discurso porque embargou a voz, de emoção. O militante das correntes minoritárias tinha diante de si 120 mil pessoas na praça mais emblemática da história da humanidade.
O projeto político da Frente de Esquerda é muito mais que uma máquina anti-liberal. A Frente incorporou a ecologia política em seu programa e, com essa contribuição, desenhou-se um projeto de sociedade novo, que contrasta com a passividade da social democracia e no gueto em que caíram os partidos ecologistas tradicionais. Não basta ser anti-liberal para defender um modelo de sociedade distinto.
Nesta entrevista para a Carta Maior, Jean-Luc Mélenchon, o homem milagre da esquerda radical revela seus modelos e o coração de uma proposta que, de uma maneira ou de outra, mudará as alianças e a filosofia política futura dos partidos de esquerda.
Carta MaiorQual é a fórmula para unir correntes distintas e, amiúde, antagônicas, dentro de um mesmo movimento? Você uniu o que estava disperso e teve êxito nessa estratégia.
Jean-Luc Mélenchon – Tudo nosso é novo, o Partido de Esquerda é novo, fazemos quatro anos no próximo mês de novembro. A Frente de Esquerda também é nova. Nós acabamos de sair das catacumbas, somos uma corrente que esteve a ponto de desaparecer da paisagem política. Na realidade, os modelos que tomamos como inspiração são os da América Latina, eu me inspirei no que aconteceu lá. Por exemplo, a Frente de Esquerda é uma fórmula política que liga partidos muito diferentes. Agora temos até ecologistas oriundos das tendências mais radicais. Na mesma Frente temos partidários do não crescimento, partidários do crescimento e comunistas.
Todos chegaram a uma intersecção. Este caso, o modelo que se pode evocar é o da Frente Ampla uruguaio. Para mim foi uma fonte de inspiração, há muitos anos. A revolução cidadã é um projeto federativo, porque inclui a ideia do poder cidadão. Essa palavra permitiu a convergência de tradições revolucionárias muito distintas. Pois bem, esta ideia eu a tomei do Equador. A maneira de enfrentar o sistema dos meios de comunicação eu a tomei de Néstor e Cristina Kirchner. Aqui, na França, atribuíram esse estilo ao meu mau humor, a minhas dificuldades, mas na realidade, não é assim: eles me manipulam e eu os manipulo. Agora os trato a pão seco, assim como o fizeram o ex-presidente Néstor Kirchner e a presidenta Cristina Kirchner. Em suma, inspiro-me muito na tradição revolucionária da América Latina. Nossa consigna é: que se vayan todos! Esta consigna eu a tirei da crise argentina de 2001.
CMQual é a chave, a palavra de ordem que está na base do consenso de tantas esquerdas?
J-L Mélenchon – Diria que sim, há uma palavra de ordem-chave, que é a seguinte: a racionalidade concreta. Meu postulado inicial consiste em dizer que não há problema algum a que não se possa oferecer uma resposta técnica, concreta, radical. Trata-se de sair dos debates perguntando-se como se pode superar o marco da contradição. Eu diria aos camaradas que quisessem nos imitar que às vezes há que se pegar o velho vocabulário, deixa-lo de lado, voltar a começar desde o zero, como se acabássemos de nascer. Através das palavras podemos criar uma nova gramática, uma síntese nova e convergências extraordinárias.
CMEstamos numa época de crise global e profunda. Seu discurso de ruptura tem encontrado forte eco no eleitorado. Que tipo de socialismo ou de agenda de esquerda se pode formular dentro e movimentos de sensibilidades similares, mas confrontadas com o enfrentamento da crise a mudar o sistema?
J-L Mélenchon – Na época da crise argentina, houve uma discussão com uns camaradas que tinham ocupado um hotel em Buenos Aires. Tivemos uma discussão sobre o tipo de socialismo que era necessário plasmar através das críticas que se podiam fazer ao modelo venezuelano ou cubano. O camarada que estava conosco disse: “Olhem, vocês, os europeus, são muito interessantes na hora de fazer polêmica, mas estão em crise. A última vez que houve uma crise desencadearam uma Guerra Mundial e a Shoah para sair da crise. Que vão fazer agora?”. Ficamos mudos. Aquele camarada tinha posto o dedo na ferida: a crise do capitalismo de nossa época conjuga crise econômica e crise ecológica e provoca deflagrações que vão muito além de esquemas teóricos, são deflagrações que ameaçam a própria humanidade. É preciso que nossa esquerda se cure da mania das querelas teológicas, das discussões aterradoras sem fim. É preciso ter uma prática racional. Quando se apresenta uma dificuldade, trata-se de desconstrui-la, de desconstruir seu conteúdo e voltar a construí-lo, com os elementos que funcionam. É impossível separar prática de trabalho teórico. Tenho uma intuição, um tipo de certeza histórica e política: a classe trabalhadora está cheia de ideias, de conhecimento, de especialistas. É uma fonte fabulosa! A dialética do intercâmbio nos permite avançar.
CMComo se disse antes, dentro da Frente de Esquerda estão os ecologistas. Mas sua presença não é decorativa, é orgânica. A ecologia política é o núcleo do projeto que você defende.
J-L Mélenchon – No princípio não tinha me dado conta dessa dimensão. Tinha uma sensibilidade em relação ao meio ambiente, frente ao desperdício e à contaminação, mas não ia além disso. Na antiga esquerda éramos capazes de pensar tudo, mas parávamos em ângulos mortos. Um dos ângulos mortos era: “como vivemos?”. Na história do socialismo há um tipo de obsessão com o homem novo. No entanto, essa é uma noção tão turva que termina se tornando perigosa. O que é esse homem novo, a que queremos dar forma? E a partir de que o faremos? Em seguida, vimos aparecer o risco totalitário. Esse era um ângulo morto. O outro estava no fato de que o desenvolvimento mesmo do sistema pode pôr em questão as mesmas bases da existência do sistema, porque esgota os recursos e saqueia o meio ambiente. Foram os verdes que puseram o tema sobre a mesa. Reconheço a dívida intelectual que tenho com eles. Alguém disse que a ecologia política era um novo paradigma organizador da esquerda, e tem razão. Interessei-me pelo tema e para mim foi um choque intelectual, similar ao choque que tive quando, na minha juventude, li o livro de Marx e Engels A Ideologia Alemã. Para mim foi uma revelação intelectual, uma chave de compreensão. O mesmo me ocorreu com a ecologia política.
Nessa busca voltei a Marx por meio da lembrança de uma frase na qual Marx falava da natureza e dizia que esta era um corpo inorgânico do homem. Marx descreve a relação do ser humano com a natureza de uma maneira dialética, na qual o ser humano é um dos episódios da natureza e não simplesmente uma criatura exterior que surge do nada e se pergunta sobre o controle da natureza. Assim, terminei por formular uma síntese entre a antiga esquerda, da que eu era representante, e o novo paradigma.
CM Essa síntese conduziu depois ao aprofundamento do princípio de planejamento ecológico como modelo de gestão.
J-L Mélenchon – Sim. Assim surgiu a ideia de planificação da ecologia. Com essa planificação, pode-se desenvolver as forças produtivas e diminuir a destruição ambiental pela humanidade.
CM – Seu argumento quer dizer que a esquerda deixou de lado a questão do meio ambiente, dos recursos naturais, que não integrou esse elemento fundamental no seu projeto de sociedade.
J-L Mélenchon – O problema da esquerda foi adotar o princípio segundo o qual os padrões de vida dos ricos eram um bom caminho. Por conseguinte, isso é o que faltava para o todo da sociedade. E é a isso que há de se renunciar. Quanto ao padrão de consumo, a riqueza é sinônimo de irresponsabilidade. Foi um erro da antiga esquerda pensar que não. Tínhamos uma perspectiva acrítica sobre o consumo. Além disso, quando surgia uma perspectiva crítica, esta era tomada como absurda por ser basear em princípios morais. A ecologia política permitiu-nos solucionar muitos problemas teóricos. Por exemplo, toda a ideia progressista repousa sobre a igualdade e sobre a similitude dos seres humanos. mas isso é uma mera ideia. Se alguém olha ao redor, vê que os seres humanos não são em nada iguais. Mas nós fundamos nossa ideia de igualdade sobre uma igualdade natural. A Revolução de 1789 disse: os seres humanos nascem e permanecem livres e iguais em direito. Essa é a razão pela qual na França nasceram todas as matrizes dos pensamentos totalitários e racistas: eles postularam que não era assim, que por natureza havia diferenças, desigualdades, raças. Quem negou a desigualdade natural conduziu todos os regimes igualitários a serem totalitários, porque tiveram de forjar algo contra a natureza. A ecologia política resolve esse obstáculo teórico, encerra a discussão. Por que? Porque diz que só existe um ecossistema compatível com a vida humana. Quer dizer, todos os seres humanos são semelhantes, pelo fato de que, se este ecossistema desaparece, os seres humanos desaparecem ao mesmo tempo.
Somos então iguais frente às obrigações do ecossistema. Isso quer dizer que se temos um só ecossistema que torna a vida possível, há então um interesse humano geral. Esse interesse humano geral é uma realidade. Desta maneira, chegamos a refundar o conjunto dos paradigmas organizadores do pensamento de esquerda, quer dizer, o socialismo, o humanismo, as Luzes, a República e a democracia.
CMNesta linha de pensamento, você pôs em primeiro plano à classe trabalhadora como ator ecológico e a ideia da planificação ecológica.
J-L Mélenchon – Exatamente! São os trabalhadores que manipulam produtos nocivos à saúde e ao ambiente. Estes produtos arruínam o primeiro segmento da natureza, que são eles mesmos: os pulmões, quando se respira porcarias, a fecundidade, etc. A classe que está em contato com a catástrofe ecológica é a classe trabalhadora. A planificação ecológica consiste em organizar a produção, que hoje é pensada no curto prazo. As empresas estão sob o controle dos investidores, das agências de qualificação, que exigem prestação de contas a cada três meses. Não há qualquer estratégia de longo prazo. Tornar compatíveis os processos de produção e de intercâmbios com os imperativos da ecologia requer tempo. A planificação consiste em qualificar o tempo, o qual é uma dimensão social e ecológica fundamental. A segunda ideia subjacente concerne à política da oferta a partir de uma pergunta: de que necessitamos? Daí surge uma outra ideia, a do imperativo comum: algo comum a todas as reflexões e a toda a produção e a todos os intercâmbios. Isso é a regra verde, quer dizer, diminuir o custo ecológico da produção de uma forma séria, metódica, profunda.
CMNesse contexto, seu projeto da revolução cidadã se distancia dos princípios da social democracia, já que, por exemplo, põe-se contra a crença no crescimento econômico como fórmula do progresso.
J-L Mélenchon – No projeto da revolução cidadã há com efeito uma ruptura teórica de fundo com a social democracia. Nós não dizemos que vamos repartir o fruto do crescimento. A social democracia está organicamente ligada ao produtivismo, porque declara que o progresso social só existe dentro do produtivismo. Não. Nós pensamos o contrário. Acreditamos que o progresso econômico só é possível se há progresso humano e progresso social. Para nós, o progresso humano e social é a condição do desenvolvimento econômico. Estamos em duas visões diametralmente opostas. Temos de recuperar a audácia dos pioneiros, daquelas pessoas que diziam “este mundo é belo, é novo”. Temos de conhecer, descobrir, proteger e impedir o saque dos recusos. A Terra é de uma grande beleza, nem tudo está perdido.
Tradução: Katarina Peixoto

Anúncios

Entry filed under: Entrevistas. Tags: .

Peru lembra 20 anos do golpe de Fujimori Michael Löwy critica Rio+20 e a propaganda da ‘economia verde’

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


RSS PSOL São Paulo

  • PSOL ingressa com ação de inconstitucionalidade da lei anti-pichação de Doria
    PSOL INGRESSA COM AÇÃO DE INCONSTITUCIONALIDADE DA LEI ANTI-PICHAÇÃO DE DÓRIA O PSOL São Paulo ingressou na tarde desta quarta-feira, dia 08 de março, com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade no Tribunal de Justiça de São Paulo questionando a Lei Municipal n° 16.612/2017, que instituiu o “Programa de Combate às Pichações” na capital. Aprovada pelo […] […]
  • Nota de repúdio à violência policial que reprimiu ato pacífico na USP
    O PSOL repudia a ação da Polícia Militar que reprimiu violentamente uma manifestação pacífica que ocorria hoje, dia 7 de março de 2017, em frente ao prédio da reitoria da Universidade de São Paulo (USP), em função da pauta bomba que seria discutida no Conselho Universitário (CO). Esta reunião do CO tinha como pauta aprovar […]
  • Projeto de pontos de cultura de São Carlos é interrompido unilateralmente pelo MINC: anúncio de um desmonte estadual em São Paulo
    Por Djalma Nery Com a tendência a entender cultura como entretenimento e eventos pontuais, políticas públicas processuais e de fomento prolongado a determinadas linguagens e manifestações artísticas tem se tornado cada vez mais escassas no orçamento público. As escolhas da atual gestão do Ministério da Cultura apontam para um possível desmonte de políticas p […]
  • A Máquina do Tempo
    Por Manoel Francisco Filho Aprendi com Neil deGrasse Tyson que segundo teoria de Albert Aistein seria possível uma curva no tempo e espaço em algum lugar do Universo, haveria possibilidade de proporcionar um portal para outra dimensão. Nunca fui muito bom em Física, abandonei o curso de Processo de Produção no terceiro semestre, esta ignorância […]
  • Desemprego no Brasil é maior entre negras e negros
    Por Joselicio Junior O estudo feito pelo IBGE, divulgado no último dia 23 de fevereiro, sobre a taxa de desemprego no último trimestre de 2016, demonstram como população negra é a mais atingida nos momentos de crise econômica. Segundo os dados, o ano passado fechou com uma taxa média de desemprego de 12%, porém para […]

%d blogueiros gostam disto: