O “bode expiatório” dos empresários

29 de março de 2012 at 12:22 pm Deixe um comentário

 

Enver José fala sobre a perseguição e criminalização que está sofrendo por lutar contra o aumento das passagens de ônibus em João Pessoa (PB)

Doracy de Medeiros

de João Pessoa (PB) Brasil de Fato

Foram realizadas nesta segunda-feira (26) e terça-feira (27) as audiências dos processos de Enver José, militante Enver José Lopes Cabral, em João Pessoa (PB).

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Protesto em João Pessoa contra o aumento das

passagens de ônibus – Foto: Thercles Silva

Militante do Levante Popular da Juventude e do Movimento Contra o Aumento JP, Enver está sendo criminalizado por sua atuação na luta contra o aumento das passagens de ônibus na capital paraibana. Em 2010 e 2011, o militante era membro do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e teve uma ampla atuação no enfrentamento ao segmento dos empresários dos transportes. Denunciou as condições precárias de trabalho dos motoristas e cobradores; questionou as planilhas de custos das empresas concessionárias do transporte; ajudou a denunciar o preço abusivo da tarifa, e, principalmente, lutou ao lado de estudantes secundaristas e universitários e dos trabalhadores. Por conta disso, está sendo processado.    .

Em João Pessoa, o movimento estudantil, junto com outros setores de organização popular, está mobilizando os estudantes da UFPB para uma caminhada em solidariedade a Enver José e contra a criminalização dos movimentos sociais. Pelo país inteiro estão sendo recolhidas assinaturas de entidades e pessoas em solidariedade ao militante.  

Em entrevista ao Brasil de Fato, Enver José fala sobre a situação em que está envolvido.   

Brasil de Fato – Quais os motivos que levaram você a ser processado judicialmente? Enver José Lopes Cabral

Há muito tempo não havia protesto em João Pessoa contra o aumento das passagens de ônibus, cerca de 5 anos sem manifestação; os estudantes não iam pra rua. Depois da massificação dos meios de comunicação pela internet, foi possível fazer a manifestação no fim do ano de 2010, época em que os empresários sempre aumentam as passagens já como uma forma de evitar os protestos dos estudantes, por causa das férias escolares. Mas no fim do ano de 2010 conseguimos mobilizar cerca de 300 estudantes em torno de 10 atos, o que é bastante significativo para o contexto político da cidade. Os empresários sentiram o peso dessas manifestações. Então começaram a inventar fatos e atribuir a autoria de crimes a mim, como uma forma de desmobilizar as manifestações.  paraiba2

E quais foram estes fatos?

Me acusam de que eu teria fabricado uma bomba análoga aos efeitos de uma dinamite e de arremessá-la em um ônibus lotado de passageiros. Os depoimentos chegam as ser inconsistentes, veja, pois dizem além disso, que logo após de eu ter arremessado uma bomba no ônibus, tentei fechar a porta pra impedir que as pessoas saíssem do transporte. Então eu teria que ser uma espécie de terrorista suicida, já que se houvesse uma explosão eu logo seria uma vítima de minha própria ação, já que estaria próximo ao veículo. As nossas manifestações sempre foram pacíficas, eu nunca iria fazer isso contra a população. Achamos um absurdo as pessoas andarem de forma desconfortável no ônibus, pagarem passagem cara e esperarem muito tempo na parada de ônibus. Lutamos pela qualidade de vida das pessoas e não pela destruição da vida das pessoas. Não teve bomba nenhuma, a bomba só existe na imaginação das sete testemunhas contratadas pelas empresas de ônibus. As provas são inconsistentes, pois nem sequer existe exame pericial. Porém temos que estar em alerta, já que se eu for condenado injustamente, posso pegar de 3 a 6 anos de cadeia. 

Mas você também é acusado em outro processo?

Outro processo que estou sofrendo é que me acusam de ter jogado uma bola de sinuca na cabeça de um motorista sindicalista. Aí você deve estar pensando “uma bola de sinuca?”. Pois é, existe imaginação pra tudo. A história da suposta bola de sinuca foi uma semana após a manifestação que me acusam de ter arremessado o artefato explosivo. Os empresários, incomodados com as manifestações estudantis, contrataram juntamente com o sindicato patronal dos motoristas e cobradores, mais de 300 motoristas, cobradores e até mesmo capangas disfarçados armados para impedir a nossa manifestação. Bateram muito em nós, bateram até mesmo em várias mulheres. Éramos nós de um lado da rua e os “motoristas e cobradores” em outro. Toda vez que a gente decidia ir para rua, eles avançavam em cima de nós, que éramos apenas uns 80 estudantes.             Decidimos sair de frente da prefeitura, que era sempre o local onde organizávamos nossa manifestação, pois não queríamos confusão com os motoristas já que eles, apesar de apoiarem os empresários com o aumento da passagem, não eram o nosso alvo a ser denunciado. Então saímos do local pela calçada, quando chegamos a mais de 300 metros de distância do local de partida, o pessoal decidiu ir para a rua. Quando os capangas dos empresários viram que fomos para a rua, saíram correndo em nossa direção e começaram a nos espancar, tentando impedir nosso livre direito de nos manifestarmos. E de repente foi uma correria, neste momento muitos manifestantes viram pessoas armadas da parte deles. Um sindicalista na confusão caiu no chão e apareceu com o ferimento no supercílio. Logo chega a polícia e eu pensei: “a polícia vai pra cima dos motoristas”, já que ela foi avisada que os motoristas estavam impedindo nosso direito de nos manifestarmos.   

A polícia chega, olha pra o rosto do sindicalista e começa a jogar spray de pimenta nos estudantes, atiram bala de borracha para o alto para espantar a gente, ao invés dos motoristas. Saímos arrasados da manifestação, abalados, pois nunca imaginaríamos que isso poderia acontecer. Acabamos, por falta de experiência, não fazendo nenhum boletim de ocorrência e nenhum exame de corpo de delito. Vários estudantes saíram com hematomas. Foi quando percebemos que os empresários não estavam de brincadeira e fariam de tudo para nos derrotar. Não só ideologicamente, mas também na força bruta. 

Houve alguma reação dos trabalhadores?

Um dia após o enfrentamento, um motorista me abordou quando fui sair do ônibus. Ele falou, mesmo com dificuldade, pois estava tímido, “tudo que você falou ali foi verdade, os motoristas e os cobradores são explorados, tudo verdade”. Também no outro dia após o acontecimento, um motorista não identificado ligou pra um programa de rádio de grande audiência na cidade e disse assim “A classe não é burra, sabemos que os empresários contrataram por 30 reais pessoas para bater nos estudantes, a classe não é burra!” Fiquei feliz com estas declarações, pois quando nos encontramos com os cobradores e motoristas impedindo nossa manifestação, denunciamos as injustiças que eles sofriam e que o sindicato era pra estar lutando ao lado dos trabalhadores e não dos empresários. Isto significa que muitos trabalhadores foram obrigados a estar lá, receberam R$ 30 como incentivo, mas a maioria não gostaria de entrar em confronto com os estudantes. Tanto que muitos estavam acalmando os motoristas que queriam bater em nós. 

E como se portou a imprensa durante as mobilizações?

Em relação aos meios de comunicação, ocorreu algo inusitado, pois parte da mídia que muitas vezes se posicionou a favor dos empresários, se posicionou em nosso favor. Mas outra parte fez reportagens muito vazias, mas em nenhum momento criminalizando o nosso movimento. Acredito que o caso foi tão brutal da parte dos empresários que fez com que as empresas de comunicação, que não eram tão umbilicalmente ligadas aos empresários nos apoiassem e parte do setor com maior ligação com os empresários se omitissem diante da situação.    

O que essa situação significa pra você?

Acho que os empresários ficaram muito incomodados com as manifestações, a ponto de tentar criminalizar o movimento. Então eu fui o “escolhido”, por aparecer mais, participar do Conselho Tarifário representando o Diretório Central dos Estudantes da UFPB. Decidiram me processar. E foi mais fácil porque me expus demais, o que me deixou bastante vulnerável. Fui o “bode expiatório”, dos empresários. Contrataram várias testemunhas falsas nesses processos judiciais. Tudo isso pra tentar fazer com que a gente tenha medo de ir pra rua. Então inventaram esses dois processos, o que de certa forma mostra que existe uma perseguição política contra mim. Sendo que o processo de criminalização não diz respeito só a mim, mas a todo o coletivo, em especial o movimento estudantil e toda a militância que participou dos protestos; é uma tentativa de tornar não só a mim um criminoso, mas a toda a coletividade que protestou. Os dois inquéritos policiais foram realizados, mesmo sendo inconsistentes, o que indica a prevalência dos interesses econômicos e não das lutas sociais pelo transporte público.     

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