Genildo e Wanderley 9 anos sem os camaradas!

16 de março de 2012 at 12:00 pm Deixe um comentário

 

Genildo e WanderleyNo dia 11 de março de 2003 tivemos a perda dos companheiros Genildo Batista e Wanderley Costa. Acredito que poucas pessoas tenham convivido com os dois ao mesmo tempo.

Genildo, 54 anos, baiano, economista, vivia em São Paulo desde o início da década de 90. Wanderley, 41 anos, ferroviário, carioca da gema, foi cria da Vila da Penha, no subúrbio do Rio.

Conheci e convivi com os dois e sinto em dobro a inestimável perda. A partir desta triste coincidência, fiquei refletindo sobre o elo de suas existências que produziram boas e profundas marcas em mim.

Fundador do PT, Genildo tornou-se militante desde a segunda metade da década de 60. Integrou a Ação Popular Marxista Leninista-APML; com o seu fim, atuou na Organização Comunista Democracia Proletária-OCDP e, depois, no Movimento Comunista Revolucionário-MCR, que se transformou na Força Socialista, em 1989. Genildo sempre foi um dos principais dirigentes políticos em todos os lugares por onde passou.

Wanderley também foi fundador do PT. Participou de núcleos, campanhas e inúmeras atividades e foi diretor do Sindicato dos Ferroviários na segunda metade da década de 80. Foi militante, durante um período, tanto da Ala Vermelha, como do MCR. Da década de 90 pra cá, atuava como militante independente. Wanderley sempre foi um militante de base.

Mas o que considero mais importante em Genildo e Wanderley não são suas fichas de militantes. Isto seria frio e burocrático. O instigante pra mim é a conduta pessoal, a filosofia de vida que vi nos dois.

Genildo foi, sem dúvida, um formulador militante do comunismo e da revolução. Mas, muito mais do que isso, foi uma pessoa que soube expressar em atos e posturas a concepção de uma nova sociedade e de novos seres humanos que defendia. Radical sem ser estreito, firme sem ser sectário, sério sem ser chato; simples no modo de ser, de vestir-se e, ao mesmo tempo, complexo, requintado e preciso na capacidade de pensar, escrever e conduzir a política. Nunca vi Genildo envolvido em disputas mesquinhas e menores – senão para resolvê-las! – e sua sobriedade nunca o impediu de ser educado; vivia concentrado nas questões políticas e nas intermináveis tarefas daí decorrentes, mas era atencioso com cada pessoa que dele se aproximasse; conseguia ser polido e bem-humorado.

Lembro-me do meu primeiro contato com Genildo. Era 1985. Fui à Bahia, pela primeira vez, para representar a Ala Vermelha no encontro estadual da OCDP. Essas duas organizações, mais o Movimento de Emancipação do Proletariado-MEP, unificavam-se para formar o MCR. Na clandestinidade, esqueci de comprar o Jornal dos Sports, que seria minha senha. Depois de ficar espreitando-me por uns cinco minutos, Jorge Lessa aproximou-se e perguntou se eu estava ali para o “casamento”. Respondi que sim e demos um forte aperto de mão. Isso tudo numa praça… em frente à Secretaria de Segurança. Logo depois, estava num fusca dirigido alucinadamente por um albino que quase encostava o rosto no pára-brisa e pingava um colírio ao mesmo tempo em que dirigia – assim conheci Franklin. Na travessia para Itaparica, no Ferry Boat, um negro alto, de gestos pacientes, altivo e de fala pausada argüia-me sobre as posições da Ala Vermelha: União Soviética, estratégia do socialismo no Brasil, papel do PT – assim conheci Genildo (e o Neiva, no Rio, dizia-me que não tinha problema o fato de eu não ser do Comitê Central e só ter 23 anos, que a discussão ia ser fácil…).

Wanderley foi, sem dúvida, um militante e um indivíduo não convencional, portador da inquietação, da prática inovadora e insubordinada a padrões e conceitos. Claro está que não foi dirigente nem formulador. Mas foi vanguarda no sentido exato do termo: com sua ação, forjava o alargamento de limites comportamentais; inaugurava, sem plano ou meta, o jeito de ser, viver e se relacionar com o outro. Wanderley – o nosso Derley – viveu todo o tempo em comunidade e para ela; para a sua grande e bela Família Costa e todos nós agregados. Mas Wanderley certamente tinha o mundo como comunidade. Se há algo mais comunista que isso, eu não conheço. O mais alegre e brincalhão dos doze filhos do saudoso Seu Domício e da guerreira Dona Maria. Daquelas pessoas em que vemos o amor por sua companheira, seus filhos, familiares e amigos, brotar incessantemente no olhar e nos gestos. Contudo, não nos enganemos com seu jeito brincalhão. Operário da Ferrovia e artista que pintava lindos painéis em muros na campanha de Vilma Costa e Fátima de Souza em 1982 e vários quadros, Wanderley conseguia ser fanfarrão e, ao mesmo tempo, solidário e profundamente comprometido com a dignidade humana. Doía-lhe a dor alheia a ponto de não sentir a própria dor.

São inúmeras as lembranças de Wanderley. No primeiro acampamento em que fui, na praia de Santo Antônio, em 1981, vi-o repartir um pão para cerca de 40 pessoas. Quando eu, Cosme, Valéria, Lourdes e Graça viajamos para o Nordeste, em 87, saiu correndo e gritando atrás do ônibus; quando o motorista parou, subiu pela roda e deu um beijo no rosto de Cosme. Quando fazíamos uma arriscada travessia para a Ilha Grande num pequeno barco apinhado de gente, à noite, Wanderley grita de repente: – Geeeente! – E quando todos olham sobressaltados, ele completa: “- Puta que pariu! O céu tá lindo, tá todo estrelado!” Nesta última campanha eleitoral, encontrei-o na boca-de-urna: estava com material de quatro deputados federais – não há dúvida, era o Wanderley!

Agora, Genildo e Wanderley não estão mais entre nós. Não se conheceram nessa vida. Mais do que seres humanos extraordinários que foram e continuarão sendo em nossas lembranças, para mim a convivência com eles teve um significado paradoxalmente parecido: Genildo tentou nos mostrar que a vida com dignidade só será alcançada com um permanente esforço e aplicação da nossa energia em prol da construção de uma nova sociedade. Wanderley, por seu turno, tentou nos mostrar que, ao lado da luta incessante, é preciso transformar desde já o jeito de ser de cada um, agindo do jeito que a gente quer que o novo ser humano seja.

Para mim, de ambos, um grande legado.

Por fim, quero mandar um grande abraço para Iara, Dimitri e Dalila. Um grande abraço também para Shirlete, Gabriela, Yuri, Nayara, Dona Maria, Vilma, Wilma, Washington, Warley, Walter, Valéria, Welington, William, Viviane, Vanice e Vânia.

Registro também uma frase dita por Dona Maria, no velório:
“Queria trocar ele por mim, mas não posso. Então se cuidem, meus filhos, para que eu não tenha mais que viver momentos como esse”.

E uma música do Gil, gravada pela Simone no final da década de 70:

Então vale à pena

(Gilberto Gil )

Se a morte faz parte da vida

E se vale à pena viver

Então morrer vale a pena

Se a gente teve o tempo para crescer

Crescer para viver de fato

O ato de amar e sofrer

Se a gente teve esse tempo

Então vale a pena morrer

Quem acordou no dia

Adormeceu na noite

Viveu cada alegria sua

Quem andou pela vida

Atravessou a ponte

Pediu bênção à dindinha lua

Não teme a sua sorte

Abraça a sua morte

Como a uma linda ninfa nua

Postado: Blog do Ewerson:

http://ewerson50.blogspot.com

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