Agora é a vez mulheres

5 de março de 2012 at 1:00 pm Deixe um comentário

Elas vencem preconceitos e avançam na ocupação de cargos relevantes no país

O Brasil hoje possui mais mulheres do que homens. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), são 95,9 homens para cada 100 mulheres. Ou seja, são 3,9 milhões de mulheres a mais no país. Além disso, elas vivem mais, cada vez se casam mais tarde e tem menos filhos. Mudanças significativas em relação a outros períodos históricos.

Cada vez mais as mulheres vencem preconceitos e ocupam lugares de destaque na sociedade brasileira e também mundial. Hoje, muitos países importantes do mundo, entre eles o Brasil, são governados por mulheres. Atualmente, aproximadamente 25% dos domicílios brasileiros são chefiados por mulheres.

Porém, nada disso ocorreu por acaso. Foi com muita luta e mobilização que as mulheres ao redor do mundo conquistaram melhores condições de vida, e direitos básicos, como o de votar.

Em 8 de março é comemorado o Dia Internacional da Mulher. E para marcar essa data o Jornal do Unificados entrevistou três de suas dirigentes mais antigas.

Nilza Pereira, dirigente do Unificados desde 1990, Noêmia Alves Costa, desde 1996, e Juscileide Barros Souza, desde 1999. Todas da Regional Osasco.

Elas falaram sobre as dificuldades enfrentadas por todas as mulheres no mundo do trabalho, hoje. Como conciliar a família, a casa, os amigos, os estudos. Isso, além da dificuldade de ser mulher em um ambiente ainda muito machista, como o sindicalismo.

“Não existe mundo melhor sem estrutura familiar melhor”

Nilza-Juscileide-e-Noêmia-1

Nilza (esq.), Juscileide e Noemia, dirigentes do Unificados

Jornal do Unificados – O sindicalismo ainda é visto como um mundo muito masculino. Como é ser uma dirigente sindical?

Juscileide – Quando entrei eram menos mulheres. Hoje está mais fácil. No começo, tínhamos uma dificuldade enorme para trazer mulheres para a direção. Aqui no Unificados temos uma cota de 30% de mulheres na diretoria, e hoje estamos acima desse número. Mas, no passado não era assim. Era muito difícil para atingirmos esse mínimo.

Noêmia – Ser dirigente sindical no momento atual é menos doloroso do que alguns anos atrás. Porém, o mundo sindical continua muito masculino, muito machista. Não é assim tão simples.

Jornal do Unificados – É mais difícil para as mulheres?

Nilza – Você não tem um horário fixo. Acordamos às 3h da manhã, como os outros diretores. Entregamos jornais, fazemos reunião de fábrica, viajamos para representar o sindicato. Fazemos tudo que qualquer outro diretor. É uma realidade puxada para as mulheres. Somos mães, donas de casa…

Jornal do Unificados – Já sofreram algum tipo de preconceito? Algum machismo?

Noêmia – Sim. Existe o machismo dentro da própria direção sindical. No mundo do trabalho também. Uma vez fui negociar com uma empresa, eu e a Zita (Maria Zita, ex-diretora do Unificados). Quando chegamos lá, o representante de empresa olhou para nós duas e perguntou: “cadê o sindicato?”. Ele esperava homens, não acreditou quando viu duas mulheres.

Jornal do Unificados – Em todo o movimento sindical as mulheres conquistaram o seu espaço?

Nilza – Em 1990, quando eu entrei na direção do sindicato, entraram 3 mulheres. Eu e mais duas. Tínhamos a proposta de aumentar o número de mulheres na direção, pois a nossa categoria conta com aproximadamente 50% de trabalhadoras. Então, não era possível uma direção de sindicato só com homens. Até que algum tempo depois aprovamos essa cota de 30% de mulheres na direção.

Essa discussão sobre o aumento no número de mulheres na direção dos sindicatos não aconteceu só aqui no Unificados. Foi uma discussão do movimento sindical como um todo. Porém, mesmo assim, em muitos sindicatos as mulheres não participam, ou não conseguem cargos de destaque.

Jornal do Unificados – Por que no Unificados as mulheres contam com mais espaço?

Noêmia – No Unificados também implantamos outras ações para facilitar a participação das mulheres. Todos os eventos do sindicato contam com creche e lugar para recreação das crianças. Isso facilita a participação tanto das diretoras como das trabalhadoras da base.

Nilza – No passado fizemos encontros só com mulheres, para explicar, para formar, trazer para perto do sindicato. Eram encontros com assuntos que interessavam para as mulheres. Desde assuntos sindicais até temas para a saúde da mulher, como métodos contraceptivos e violência doméstica.

Jornal do Unificados – Como é a relação familiar de vocês? Com os horários? Os filhos cobram?

Juscileide – No meu caso foi fácil. Em todas as atividades do sindicato a minha filha sempre me acompanhou. Ela sempre esteve presente. Muito em função de ter um espaço para as crianças. Eu a carregava sempre, para todos os encontros sindicais.

Noêmia – Eu tento ter uma vida normal, como mãe, como esposa, como estudante. Mas como sindicalista isso é meio impossível. A família cobra, sim. Eu também sempre trouxe a família para perto, com a participação nos eventos. Ajuda, diminui essa cobrança. Eles passam a entender o nosso trabalho, os nossos horários.

Nilza – Os meus três filhos praticamente nasceram aqui no sindicato. Eles cresceram aqui. Sempre estiveram muito presentes. Hoje, que estão maiores, me cobram mais. Porque as pessoas ligam (telefonam, fora do horário dito comercial) sempre, eu saio durante a noite, nos fins de semana.

Mesmo assim eu posso contar nos dedos os dias que faltei em reunião de escola, em consulta médica. Mesmo nessa loucura toda eu sempre fui uma mãe presente, sempre acompanhei. Assim como elas duas também.

A gente não pode defender uma sociedade melhor, um mundo melhor lá fora, a gente tem que defender um mundo melhor em casa. Mesmo com esse mundo machista. Não existe mundo melhor sem estrutura familiar melhor.

Jornal do Unificados – Apesar de todas as dificuldades, vocês gostam do que fazem?

Nilza – Eu gosto. O sindicato é 50% da minha vida, acredito no que faço.

Juscileide – Eu gosto muito, sou muito feliz. Acredito que tudo que aprendi nesse tempo todo eu tenho que passar para outras pessoas.

Noêmia – Impossível depois de 20 anos falar que não gosta do que faz, né? Eu sempre fiz isso, mesmo antes do sindicato. É uma coisa que está no sangue, acho que você já nasce com isso. Cansa, desgasta, mas eu gosto muito do que faço.

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